Minha mãe começou a usar bengala há um ano mais ou menos. Foi dureza. No início, ela não queria usar. Pudera, né? Usar bengala é sinônimo de estar ficando velho... Ou doente. Para uma mulher, nada menos charmoso do que usar este acessório também. É triste, mas vem aquela pergunta também: os outros vão ver, comentar, nem sempre da melhor forma. Na verdade, bem provavelmente, da pior forma ("você viu fulana? Esta usando BENGALA!!!").
Mas Dona Amélia é um ser evoluído. O médico falou, a gente falou, ela pensou e... Fomos eu e ela comprar a bengala. Fui para dar aquele apoio moral. Nem sabia que bengala vende na farmácia (e nem sabia que tem que trocar a borrachinha da ponta de vez em quando). Dona Amélia comprou a bengala e pôs um apelido nela: amiguinha.
Como eu disse: Dona Amélia, ser evoluído.
Minha mãe já apresentava dificuldades de locomoção antes, mas a gente achava que a responsável era ela (pois é. O mundo é cruel. A família pode ser cruel também). Que ela só precisava caminhar mais rápido. Levantar mais a perna. Pisar do jeito certo.
Mas, claro, não é bem assim. Ela não conseguia fazer nada disso porque o que ela tem impede. Simples assim. Difícil assim. Demorou para arrumar um médico bom para fechar o diagnostico! Se você estiver precisando de um ortopedista COMPETENTE no Rio de Janeiro, me pergunte, que eu tenho um nome para indicar.
Mas por que eu to contando tudo isso? Para falar de acessibilidade. Algo que a gente só pensa quando nós mesmos precisamos - ou alguém que a gente ama precisa.
Hoje tenho um novo olhar sobre os lugares e vejo como eles são inóspitos para pessoas mais velhas ou com alguma dificuldade de locomoção. Nem to falando de pessoas em cadeira de rodas, não. Só de andar um pouco mais devagar, você já vê a selva que é a cidade.
Metrô, por exemplo. Já viu a quantidade de escada? E as longas distâncias a percorrer? Ônibus: só vou citar os degraus do tamanho do Everest. Distância é algo muito relativo quando se tem dificuldade de locomoção. Eu, por exemplo, me lesionei na corrida e não posso subir escada. Nessa hora e que a gente descobre como tem escada no nosso caminho diário.
Mas nem tudo é ruim, não. Tem evolução. Fui recentemente visitar as Cataratas do Iguaçu e, no lado brasileiro, fiquei encantada porque o Parque Nacional do Iguaçu pensou no acesso de todos, inclusive dos que têm dificuldade de locomoção. Um elevador leva diretamente ao local das quedas. Fiquei feliz em pensar que posso levar minha mãe para ver o que eu vi. Porque o lado triste da dificuldade de locomoção é justamente ficar restrito aos mesmos lugares, parado mesmo, sem poder ver o mundo. E a Dona Amélia gosta de passear, andar, ver as coisas. Gosta e merece ter esse direito. Assim como milhões de outras pessoas. Você não acha?
