quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Acessibilidade: algo sobre o qual você só pensa quando precisa



Minha mãe começou a usar bengala há um ano mais ou menos. Foi dureza. No início, ela não queria usar. Pudera, né? Usar bengala é sinônimo de estar ficando velho... Ou doente. Para uma mulher, nada menos charmoso do que usar este acessório também. É triste, mas vem aquela pergunta também: os outros vão ver, comentar, nem sempre da melhor forma. Na verdade, bem provavelmente, da pior forma ("você viu fulana? Esta usando BENGALA!!!").

Mas Dona Amélia é um ser evoluído. O médico falou, a gente falou, ela pensou e... Fomos eu e ela comprar a bengala. Fui para dar aquele apoio moral. Nem sabia que bengala vende na farmácia (e nem sabia que tem que trocar a borrachinha da ponta de vez em quando). Dona Amélia comprou a bengala e pôs um apelido nela: amiguinha.

Como eu disse: Dona Amélia, ser evoluído. 

Minha mãe já apresentava dificuldades de locomoção antes, mas a gente achava que a responsável era ela (pois é. O mundo é cruel. A família pode ser cruel também). Que ela só precisava caminhar mais rápido. Levantar mais a perna. Pisar do jeito certo. 

Mas, claro, não é bem assim. Ela não conseguia fazer nada disso porque o que ela tem impede. Simples assim. Difícil assim. Demorou para arrumar um médico bom para fechar o diagnostico! Se você estiver precisando de um ortopedista COMPETENTE no Rio de Janeiro, me pergunte, que eu tenho um nome para indicar. 

Mas por que eu to contando tudo isso? Para falar de acessibilidade. Algo que a gente só pensa quando nós mesmos precisamos - ou alguém que a gente ama precisa. 

Hoje tenho um novo olhar sobre os lugares e vejo como eles são inóspitos para pessoas mais velhas ou com alguma dificuldade de locomoção. Nem to falando de pessoas em cadeira de rodas, não. Só de andar um pouco mais devagar, você já vê a selva que é a cidade. 

Metrô, por exemplo. Já viu a quantidade de escada? E as longas distâncias a percorrer? Ônibus: só vou citar os degraus do tamanho do Everest. Distância é algo muito relativo quando se tem dificuldade de locomoção. Eu, por exemplo, me lesionei na corrida e não posso subir escada. Nessa hora e que a gente descobre como tem escada no nosso caminho diário. 

Mas nem tudo é ruim, não. Tem evolução. Fui recentemente visitar as Cataratas do Iguaçu e, no lado brasileiro, fiquei encantada porque o Parque Nacional do Iguaçu pensou no acesso de todos, inclusive dos que têm dificuldade de locomoção. Um elevador leva diretamente ao local das quedas. Fiquei feliz em pensar que posso levar minha mãe para ver o que eu vi. Porque o lado triste da dificuldade de locomoção é justamente ficar restrito aos mesmos lugares, parado mesmo, sem poder ver o mundo. E a Dona Amélia gosta de passear, andar, ver as coisas. Gosta e merece ter esse direito. Assim como milhões de outras pessoas. Você não acha? 


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Da crueldade de algumas mulheres com as próprias mulheres

É impressionante como algumas mulheres são capazes de ser cruéis com as próprias mulheres. O depoimento desta pessoa pública é só mais um relato de uma mãe que sonhou com a maternidade e com a amamentação, mas que infelizmente nem tudo saiu como sonhado. Digo isto, pois passei pela mesma situação e além de todo o sofrimento, frustração, sentimento de incapacidade, ainda tive que aturar olhares e discursos julgadores. Durante minha primeira gestação fiz todos os cursos de gestantes daqui: no Maternidade Vitória Apart, no Santa Paula, em um muito bom que a Balãozinho promove, em um de massagem relaxante para bebês com a doula Patrícia, fui ao HPM e conversei com as profissionais do banco de leite, vi os vídeos, tirei minhas dúvidas, mostrei o peito pra dezenas de enfermeiras que me ensinaram todo o passo a passo da amamentação. Com 9 meses a expectativa era grande, ser mãe pela primeira vez e, tal como nas cenas dos filmes, vivenciar aquela cena linda do bebê mamando com os olhos vidrados na mãe, segurando a mãozinha com carinho. Minha realidade foi diferente. Além da ausência de bico, minha bebê nasceu com a arcada inferior um pouco recuada. Foi um desespero, uma noite a mais de internação, todas as enfermeiras da maternidade quase 24 horas ao nosso redor nos ajudando. Uma excelente Fonoaudióloga foi chamada e nos ajudou todo o tempo. Nada. Tivemos alta, mas não me dei por vencida. Voltei direto para o HPM, desta vez com minha bebê nos braços e lá fiquei duas horas com as enfermeiras tentando nos ajudar na amamentação. Eu havia me recusado a dar mamadeira, minha filha estava tomando leite em fórmula por sonda, pois eu simplesmente não queria que ela experimentasse o bico da mamadeira. Minha ficha começou a cair quando a própria enfermeira chefe do HPM se virou para mim, após duas horas de tentativa frustrada e disse "mãe, pode fazer uma mamadeira, que sua filha está com muita fome". Ok, fiz. E eu me dei por vencida? Com ela mesmo aluguei um extrator elétrico de leite materno (porque o manual eu já tinha tentado, bem como os bicos de silicone) e pensei que em casa, com calma, eu conseguiria. Fiquei horas com aquela máquina puxando meu bico (imagina a dor? Sim, eu sabia que seria doloroso) e o máximo que consegui tirar após umas três horas foram 15 ml de leite. Era pouco, mas dei para minha filha. Uma semana após seu nascimento, a pediatra mandou entrar com a mamadeira, pois minha filha começaria a perder peso, dado o incômodo que é alimentar um bebê por sonda. Foi frustrante, fiquei deprimida, tentei de tudo, mas não consegui. O que esta senhora famosa está passando eu sei exatamente como é. Nem tudo é como a gente quer, mas o sonho da maternidade foi realizado e o amor pelos nossos filhos é algo que está para além do entendimento humano. Com meu segundo filho, também não consegui, mas eu já havia passado pela experiência da minha primeira filha e, um pouco mais serena, vivi a realidade novamente do meu bebê tomando fórmula. Moral da história? Vamos parar de julgar. A página desta famosa está cheia de mulheres a acusando, sendo cruéis, gente batendo no peito e dizendo que são boas demais, pois insistiram mais que todas e conseguiram. Ora, gente, vamos ser mais humanos e entender de uma vez por todas que no final das contas uma coisa faz a diferença : o amor. As mães que simplesmente decidiram não amamentar, seja por qual motivo, têm o meu respeito também, porque devemos respeitar as pessoas. E as que, assim como eu e esta jornalista, tentaram de todas as formas, mas não conseguiram, muito respeito, ok? Mais amor no coração, people!



"Fernanda Gentil
3 de outubro às 07:50 ·

Eu achei que amamentar fosse tão automático quanto ser mãe: se quando nasce um filho, nasce uma mãe, então essa mãe vai amamentar. Não necessariamente. Não se tiver mamilos invertidos, prótese, redução de mama, se sentir muita dor, se o leite não descer ou se secar - e o meu secou. Para uma mãe que sempre sonhou em viver o momento mágico-de-filme do filho mamando no peito, do olho no olho, da mãozinha segurando o nosso dedo, a notícia da mamadeira cai como uma bomba. Chorei, me julguei e repassei a gravidez inteira na minha cabeça tentando descobrir onde errei - se foi o chocolate que comi, a noite que não dormi ou aquela escada que subi. O meu sofrimento durou até eu dar a primeira mamadeira. Foi quando descobri duas coisas: eles também olham no nosso olho e a mãozinha também segura o nosso dedo quando mamam na "dedêra". Descobri que esse é um assunto polêmico e não estou aqui para polemizar. Se eu posso usar minha imagem para ajudar minimamente que seja, escrevo por isso - principalmente para mulheres na mesma situação que eu. E se você é uma delas, aí vai a minha terceira e melhor descoberta: o amor que bate no peito, bate também na mamadeira."